Senti uma brisa passar pelo meu rosto. Acordei-me, mas não completamente. Sentia uma leve dor de cabeça, estava com ressaca por causa da droga que Jasmim usara para me fazer adormecer. Fui recobrando os sentidos aos poucos, já enxergava normalmente, mas meu corpo estava parcialmente adormecido.
Apoiei-me nos braços e me levantei um pouco. Estava numa cama dentro de um barraco de madeira. Não tinha móveis, apenas a cama. Tinha uma porta e uma janela. A madeira das paredes tinha algumas rachaduras e algumas marcas de umidade.
Percebi que não estava usando minhas roupas de antes, jeans e casaco preto e sim, uma camiseta branca e uma bermuda havaiana preta com desenhos de flores azuis. Continuava com meus All Stars brancos.
De repente, entrou um ser que parecia ser um adolescente, mas definitivimante, não era. Seus cabelos eram prateados, tinha orelhas de cachorro, pelos no corpo todo, da mesma cor dos cabelos. A face era limpa de pelos a não ser pelas grossas costeletas. Seus olhos eram castanho escuro, usava apenas uma bermuda jeans surrada. Tinha um furo atrás para que o rabo do cachorro-homem pudesse “respirar”.
Como que por reflexo, e eu entendo de reflexos, eu comecei a procurar minha espada no bolso, mas nem sinal dela.
— Sempre o velho preconceito! — disse a criatura.
— Quem é você? — balbuciei.
— Meu nome é Jonny. Sou um Canimô, não um monstro. Pode se acalmar. — Ele se sentou nos pés da cama.
Notei que ele tinha mãos humanas bem peludas, mas seus pés eram de cachorro. As unhas da mão pareciam escondidas como se ele tivesse garras.
— Canimô? — perguntei.
— Sou meio humano, meio cão. Você esteve dormindo por sete dias. — disse Jonny, o Canimô olhando para o teto.
— Sete dias?! Oh meu Deus! Drake! Ele…
— Relaxa, cara. Você está muito tenso. Sério. Drake está desaparecido desde que descobriram que você é um caçador, sabe? Ele sumiu do mapa. Eles achavam que você estava morto.
— Quem achou…
— O conselho dos Caçadores achou que você estava morto, mas não tinha muita importância, afinal, não é normal o filho herdar a maldição do pai, geralmente é do avô, ou bisa. — respondeu Jonny.
— Que maldição? Eu não… você pode me explicar melhor? — falei com dificuldade.
Jonny, o adolescente cachorro, levantou uma sobrancelha. Depois abriu um largo sorriso mostrando seus dentes.
— Aparentemente, Drake não lhe ensinou quase nada sobre si mesmo. Então ta, irei lhe explicar tudo. Mas não aqui. Que tal irmos passear na praia?
…
Estávamos em uma ilha muito linda. Parecia um cartão postal do caribe. A praia tinha areia branca, a água que nos cercava era límpida e verde, tão limpa, que quando você entrava na água, podia ver seus pés perfeitamente.
Jonny e eu nos sentamos bem na beira, as ondas que quebravam na praia às vezes molhavam nossos pés. O barraco onde eu acordara ficava bem perto de onde estávamos naquele momento.
— Que ilha é essa? — perguntei a Jonny.
— A ilha do exílio. — respondeu-me sem tirar os olhos do horizonte. — Quando um caçador não registrado é descoberto, ele é mandado para cá. Você precisa saber de toda história para compreender o que passa com você neste momento muito louco da sua vida.
— Você pode me ajudar a compreender, Jonny?
Por um tempo, ficamos apenas escutando as ondas quebrarem. O dia estava lindo, quase nenhuma nuvem no céu e um sol brilhante que estava prestes a se por. Jonny observava o horizonte apreensivo. Eu olhava pra ele esperando uma resposta. Por fim, ele respirou fundo e disse:
— Beleza. Limpe seus ouvidos cheios de cera que vou te contar tudo que você precisa saber até o momento.
“Desde os tempos mais primórdios, Equidna e Tifón vem gerando monstros. Monstros não tão poderosos como o pai, nem tão inteligentes quanto à mãe, mas bastante perigosos. Criaturas como: vampiros, dragões, ogros, etc.
Conforme o tempo foi passando, heróis apareceram na história para matá-los. Foram adicionados na história como deuses, heróis, que é o caso de Heracles ou Hércules. Ele era um caçador de monstro que matou os maiores monstros da história, a Hydra, o Leão de Nemeia, e por aí vai. Aparece nas histórias como semideus, filho de Zeus com uma mortal, mas isso era o que o povo acreditava.
Conforme o tempo passava, novos personagens eram adicionados a história, todos matando monstros e a maioria acrescentada a uma religião. Depois de anos em que os caçadores lutavam por si sós, Gill Mark, fundou A Ordem dos Caçadores.
Junto com a ordem, foi criado o conselho. O conselho que defini o que deve ser feito em relação as decisões de caçadores. Missões, casos de exílios, etc.
Agora, vou explicar a maldição dos caçadores. Como você já deve saber, os Caçadores de Monstros não se tornam Caçadores de Monstros, é sua linhagem familiar que decidi isso.
Mas existe um fato interessante, nunca acontece de um pai caçador ter um filho caçador. Não, geralmente se passa três gerações para que nasça um novo amaldiçoado. Seu pai era um caçador, assim como seu tataravô. Passaram-se duas gerações para que nascesse um novo caçador na sua família.
Porém, quando você nasceu, ninguém podia suspeitar que você seria um caçador de monstros, seus tataranetos é que deveriam ser. O que aconteceu com você é muito raro, portanto, quando sua casa explodiu, achou-se que você tinha sido morto. O que não era muito importante, afinal, você não deveria ser um caçador.
Passaram-se alguns anos, quatro pra ser mais exato, e há três semanas, você matou um vampiro. Foi quando descobrimos que você estava vivo, e que não havia sido treinado da maneira correta. Drake é um ex-membro da ordem, ele foi legalmente treinado por seu pai, ou seja, o conselho determinou que seu pai devia treiná-lo. Drake foi expulso há cinco anos por ter ido a uma missão não autorizada e falhado. Seu pai lutou para que não fosse expulso, mas aconteceu.
Quando o conselho soube que Drake, um caçador não autorizado a treinar alguém ou a matar algum monstro, havia lhe treinado, eles te exilaram nessa ilha e prenderam-no. Destruíram as espadas de ambos e, agora, seu futuro está nas mãos do conselho.”
Jonny havia me contado tudo com muita calma. Eu havia entendido tudo. Meu pai treinou Drake, e Drake me escondeu da ordem. Ele havia enganado o conselho duas vezes, e agora, eu era um exilado.
Isso, sem falar, que minha espada fora destruída. Eu não estava bem com aquilo, era como se um pedaço de mim fosse-me arrancado. Drake cometera um erro ao me treinar. Aparentemente, meu treino havia sido muito ruim.
Havia muita coisa que eu não sabia. Eu tinha toda noção de esgrima, táticas de batalha, mas na teoria eu era um ovo. Não sabia quase nada sobre monstros, não sabia da existência da ordem ou do conselho, não sabia da história dos caçadores, não sabia que eu não devia ter nascido, e mais uma série de coisas. E agora, eu poderia ficar naquela ilha pelo resto de minha vida. Eu não queria culpar Drake, mas no fundo eu sabia, que era culpa dele sim. Ele foi irresponsável e quem ia pagar era eu.
Engoli em seco. Digeri toda informação. Estava exausto. E com raiva.
— Ficarei nessa ilha pra sempre, Jonny? — perguntei. Minha voz não soou muito feliz. Jonny me olhou penosamente.
— Não, cara! Olha só, você está aqui temporariamente. Apenas para que não cometa nenhuma burrada em quanto o conselho determina qual vai ser sua situação. Você pode ficar aqui tanto dias, quanto horas…
— Tanto meses, quanto anos. — completei.
O sol se escondia atrás do horizonte naquele momento. Jonny continuou olhando o mar.
— E quanto a minha espada? — perguntei.
Jonny me olhou como se estivesse com pena.
— Sua espada, na verdade, não era sua espada. Era a espada de seu pai. As espadas dos caçadores devem morrer junto com eles, no caso, a espada de seu pai deveria ter sido destruída junto com seu pai.
— Então, eu nunca mais vou possuir uma espada?
— Se o conselho decidir que você pode continuar sendo um caçador, você irá forjar sua própria espada. Pode não ser tão boa quando a de seu pai que podia se transformar de empunhadura a uma espada completa, mas será como uma parte de você.
— Eu sentia como se a espada de meu pai fosse parte de mim.
— Será diferente. A espada de seu pai era parte de você porque você sempre usava ela. É como quando você tem um relógio e está sempre olhando as horas, quando você perde o relógio, as vezes acaba olhando pro pulso sem nada, não é? É como se ele fosse parte de você.
Jonny parou por um momento, então prosseguiu:
— Com uma espada que você mesmo forjou, você sentirá como se sua alma estivesse naquela espada. É sinistro!
Pela primeira vez em algumas semanas, eu consegui rir. Jonny pareceu feliz com seu feito.
— Escute, Jonny, qual é sua função? — perguntei.
— A mesma função de todos os Canimôs — ele respondeu. — Temos que guiar Caçadores mais novos, às vezes os acompanhamos em missões. Eu já fui em duas. Uma em que um caçador de dezesseis anos tinha que matar um basilisco, e outra em que uma caçadora de treze matou um touro infernal. Agora, estou aqui como seu guia.
— Quais são as habilidades de um canimô?
— Vejamos, eu posso correr muito rápido, como um cão, saltar alto, como um cão, farejar coisas, como um cão e tenho garras.
Ele estendeu as mãos. As unhas se transformaram em garras, não do tamanho de espadas como as dos vampiros, mas do tamanho de uma faca.
— Show!
— É — disse ele “guardando” as garras.
Novamente, ficamos em silêncio, as atenções voltadas para o mar.
O sol já estava quase desaparecendo no horizonte. Logo seria noite.
— Será que ficarei aqui por muito tempo? — perguntei pensativo.
— Não. — respondeu Jonny rapidamente.
— Como você tem tanta certeza? — perguntei incrédulo.
— Lá vem a sua carona, ó!
Ele apontou com o dedo peludo para o horizonte. Eu demorei pra ver o que ele via, mas logo me dei conta do que era. Um barco. Um barco que carregava uma bandeira. A bandeira tinha um símbolo:
Um “C” sobre um “M”.
